domingo, 10 de janeiro de 2010

Corrompendo os que corrompem


História quase inverídica que acontece com jornalistas.

Em tempos de lei seca existem blitz no mais diversos cantos das grandes cidades brasileiras. E como, infelizmente, de praxe, tem sempre um policial querendo levar vantagem com irregularidade do carro alheio.

Certo dia, um jornalista voltava de mais um dia daqueles, em que uma única tarde teve que cobrir uma coletiva do governador do Estado e o enterro de mais uma vítima de acidente de trânsito, quando se depara com uma “operação” no translado do trabalho para sua casa.

Ao encostar o carro percebeu não se tratar de uma blitz comum. Os policiais que o abordaram não eram do batalhão de trânsito, tampouco agentes destinados a fazer aquele tipo de abordagem.

- Boa noite, senhor os documentos do veículo. – disse com uma voz bem empostada o policial com a barriga saliente de vários anos sem exercício.

Após fazer o que o homem da lei tinha pedido, o jornalista olhava pelo retrovisor o mesmo olhar de cabo a rabo cada parte do seu veículo.

- O senhor pode sair do carro, por favor. - foi falando o policial em um tom ameaçador

Do lado de fora o homem observou o policial fiscalizar cada parte do carro.

- Parece que temos um problema aqui.

- Problema? Onde? Qual? – (essa mania de jornalista de pergunta tudo...)

- Amigo o extintor de incêndio do seu carro está vencido há três meses. Falou o policial, do alto da imponência que tinha naquela situação, enquanto o outro policial, que ainda estava na viatura se aproximou.

- Félix, vamos ter que apreender este veículo – falou o autor da abordagem.

- Apreender? O que é isso...?

- Amigo, se discutir será pior – já foi falando o novato na conversa

- Mas eu pensei que nestes casos seria aplicada apenas a multa, sem a apreensão.

- Correto, desculpe por não ter falado da multa antes. Ela acompanha a apreensão.

- Mas isso não direito!

- Direito ou não é o que será feito, a não ser que senhor queira colaborar.

- Colaborar? Mas, colaborar como?

- O senhor sabe, estamos aqui à noite toda e ainda não fizemos o nosso lanche. Se puder ajudar a contribuir para matar a fome dos companheiros aqui será de bom grado.

Percebendo onde tinha chegado a situação o jornalista resolveu encostar na parede os homens que não estavam muito afim de levar a profissão a sério.

- Ok, mas só uma dúvida, amigo. Quem aplica multas não é o batalhão de trânsito ou os agentes da guarda municipal responsáveis pelo tráfego na cidade?

Surpresos com a indagação resolveram alterar o tem de voz.

- Meu chapa, não tente complicar a situação. Colabore por favor

Lembrando que a tarde tinha conversado com o comandante geral da polícia na mesma coletiva do governador, o jornalista partiu para briga.

- Ok então. Posso fazer um telefonema para um amigo meu. Para ver se ele pode trazer o dinheiro.

- Fique a vontade – falaram em um único os dois policiais.

Ao verificarem na agenda do jornalista nome do comandante e preso na mesma o crachá que identificava que o homem abordado trabalhava em um dos mais importantes jornais da cidade, os policiais recuaram.

- Amigo, pensando bem, achamos melhor o senhor seguir o seu caminho. Até por que... O que é um extintor? Vamos deixar isto para lá. Estamos vendo que o senhor está com um pouco de pressa.

- Tem razão, estou até meio apressado sim.

Voltando ao volante do veículo e vendo os policiais se afastarem pela janela decidiu fazer a última pergunta da noite.

- Opa! Os amigos dão licença? Lembrei agora que não comprei ainda o pão para o jantar. Os companheiros não poderiam colaborar para eu não ficar com fome esta noite?

2 comentários:

Thiago Capodeferro disse...

Cidadão nenhum pode ficar calado diante dos abusos que a gente vê todo dia. Não só em casos específicos como esse, mas no geral, principalmente com a pouca vergonha que é a nossa política. Tem que levantar a voz e qustionar mesmo. A imprensa então tem que ser mais fiscalizadora do que nunca. O problema é que as vezes nem mesmo ela cumpre o seu papel...

mulherpolvo disse...

É por essas e outras que o sujeito ainda quer prestar concurso para PM!
Pelo menos na ficção tiveram sua recompensa... Muito, muito bom o texto!!
Agora, me fala uma coisa: estás recém-casado?? parabéns, se for o caso!!